SUCESSO

As pessoas me perguntam há quanto tempo eu faço pães.
Bom, se eu for pensar desde lá atrás quando comecei… Já deve fazer uns dez anos ou um pouco mais… Mas, profissionalmente, desde maio de 2013. Para colocar em números, um ano e sete meses a partir da data que escrevo este texto.

Quando digo isto escuto um misto de exclamação: ” – Nossa, tão rápido e já está assim?!” Sim, mas assim como, não é?

Então, quero escrever hoje sobre meu “rápido sucesso” neste ofício e dizer a você que ele demorou 52 anos para acontecer. Ficou com inveja? (Risos) Não fique!
Sim, 52 anos construindo uma história para que eu descobrisse um ofício, ou trabalho, ou profissão que me fizesse feliz. Sim, 52 anos para adquirir maturidade, para ter paciência, para deixar de me colocar como vítima, para levantar dos meus tombos sacudir a poeira e começar tudo de novo, às vezes, em mais um trabalho que não daria certo. E o tempo, minha juventude, minha disposição e ânimo indo embora e eu assisti tudo!
Sonhei muito, olhava pessoas mais jovens do que eu, já bem sucedidas em suas profissões, amigos que conquistavam bens materiais – casa, carro, negócios indo bem – coisas que eu ainda “ralo” para ter.
Deixei-me abater, desanimei, não acreditei, tive momentos muito ruins com minha solidão e depressão.  Corri para saber se ainda daria tempo. Fiz terapia, fiz cursos para autoconhecimento, tive altas crises pessoais, caí em descrédito com minha família, com professores quando eu fazia faculdade e com pessoas que mal me conheciam e me julgaram e ainda julgarão. O mundo é assim!
Mas, quando resolvi ir por este caminho, ainda tive milhões de fantasmas me atormentando a respeito dos meus fracassos. Cheguei a acreditar em alguns. Esmoreci, busquei ajuda de novo, chorei, chorei, chorei, chorei… Busquei apoio em amigos, irmãos, família, meu pai, meu marido, meu filho e continuava a chorar para limpar minha alma e me deixar mais leve de tanto peso que eu carregava por AINDA NÃO TER ACERTADO NA VIDA! Sim, com todas as letras em caixa alta!

Olha, minha carreira acadêmica deu voltas em arquitetura, letras, história, administração de empresas… Quanta coisa comecei pra depois de tudo fazer pão!
Fui trabalhar como auxiliar de faturamento – meu primeiro emprego, fui secretária bilingue, meu segundo, fui atendimento em agência de propaganda, fui contato…(risos, porque isto é antigo, né?) Sim, contato comercial em um jornal, fiz trabalho de RP, sem ser, para uma instituição educacional, fui vendedora de roupas – fazia compras em São Paulo, voltava de malas cheias, vendia tudo e gastava também. Fui gerente de empresa de logística, fiz trabalho de produtora de fotografia, vendi fotografia para casamento, fui representante comercial daquele jornal que trabalhei como contato (risos, acho engraçada a palavra, uai!). Fui demitida, mais de uma vez. Voltei a fazer faculdade barriguda esperando o Antonio. Sim, porque eu interrompia tudo em busca do trabalho perdido, da profissão idealizada e esquecia do básico!

Casei, tive filho, construí uma família, fiz muitos amigos e ainda faço, continuei chorando por algum tempo, fiz terapia de novo, quis desistir, continuei, tive apoio de amigos que nutrem um sentimento genuíno por mim e por meus desacertos. Riem comigo, levantam meu ânimo… Como tive outros que  foram embora e nunca mais vieram na minha casa e nem os culpo, já passei da idade de cobrar qualquer coisa de alguém. Cada um é o que é e vivi o que tinha para viver e aprender com eles, não é? É assim! Sem cobranças, sem mágoas, sem melindres… Quanta experiência ganhei! Que ótimo! Bola pra frente que atrás vem gente (risos)!

O que eu poderia dizer mais sobre este meu “rápido sucesso”?
De verdade, não sei, mas vou torcer para que eu realmente tenha sucesso no que faço, que eu possa também comprar minha casa, meu carro, ter uma vida financeira mais confortável, fruto de muito trabalho, de muitos erros e tombos para acertar. Torcer para encontrar boas pessoas, bons profissionais no meu caminho que possam me ajudar a dar continuidade ao que comecei.
Que eu tenha responsabilidade e seriedade ao passar minhas histórias, meu conhecimento, para pessoas que, espero, possam fazer bom uso deles e que elas também tenham sucesso naquilo que fizerem. Não somos nada sozinhos!

Não sei, acho que é isto, se eu lembrar de mais alguma coisa volto aqui para escrever…***

Mas sucesso, sucesso mesmo é acordar de manhã com um beijo do meu filho me dizendo bom dia.
É ser digna de receber pequenas gentilezas de pessoas que vejo tão pouco, mas que se lembram de um dia, de uma conversa, de uma palavra que eu disse ou escrevi e que, para elas, naquele dia fez toda a diferença.
Isto para mim é ter sucesso…

PÃO VERUSKA MULTIGRÃOS

Fotografia Henry Milleo

Ela me fez enxergar mais longe.
Emprestou-me seus olhos para ver o quanto eu era capaz e que eu poderia acreditar num sonho. Acreditar em mim.
Reencontrei-a 40 anos depois, como a descobrir um tesouro, cheio de histórias preciosas para comigo dividir.
Quando eu era menina, na cidadezinha onde morávamos, brincava com suas filhas no seu enorme quintal.
O reencontro foi uma emoção muito grande para nós duas. E aqui nesta terra, distante dos meus, adotei-a como mãe do coração e dela sinto falta todos os dias.
Foi ela quem me impulsionou a fazer o curso de pães…
Foi o toque dela na minha alma que me encorajou a seguir adiante.

Quase todos os dias, depois do curso, passava para lhe dar um abraço ou levar um pão quentinho que eu havia feito…

Por muitas vezes em nossos encontros, enquanto eu segurava suas mãos, D. Vera ouvia-me amorosa, permitia-me chorar e abrir meu coração para eu lhe contar minhas histórias e sonhar meus projetos.
Memórias revividas, nos distraíamos por horas em longas conversas sobre outros tempos e sobre hoje.

Quando terminei as aulas de panificação, em 2013, quis fazer um pão especial para ela porque,  por recomendação médica, D. Vera só podia comer pão integral…Disse-lhe que este pão seria dela e que eu o chamaria de Pão Vera.
Ela a princípio, concordou…

Fiz este pão incontáveis vezes.
Foi quase um ano inteiro assim. Muita massa jogada fora, mal assada, mal forneada…
Segui fazendo testes com a receita até que desse certo…
Até que pudesse ficar bom.

Lembro-me que em um de nossos muitos encontros, ela me chamou e fez um pedido:
“- Celi, já que este pão é meu, posso mudar o nome dele?”
Respondi um tanto ressabiada:
” – Claro, querida, o pão é seu, qual o nome que a Senhora quer dar?”
E ela me devolveu com os olhos brilhando: ” – Veruska, com K !”
E eu curiosa: “- Veruska com K? Por que Veruska?”
E ela sorrindo: ” – Porque era assim que papai me chamava: Veruska.”
Para ela, o carinho da lembrança com o pai.
Para mim, um pão cheio de amor e afeto embalado há tempos por ela.

ADORMECER…




A noite cálida 
cobre meu sono e
num suspirar doce de saudade
assopra nuvens condensadas de luar. 

Caminhada…

Fotografia: Alexandre Mazzo





Sob os pés encontro caminhos, 
piso estradas nascentes, 
marco espaços poentes e descanso em véus os versos… 

MEU TEMPO e DEUS

 

Meu Deus, dai-me mais tempo! 

Tempo para ler, brincar, contar histórias, tomar mais banhos de sol! 
Olhar o mar, contar as ondas até cansar os olhos! 

Senhor, estou feliz, mantenha-me assim, tá bom? 
Só mais um pouquinho que ainda quero ver Antonio ficar mocinho, ir para a faculdade… Conhecer seu par, ser avó?…

Mantenha-me aqui ainda, para que eu possa estudar, ajudar alguém que precisa, andar de mãos dadas com meu marido, até ficarmos velhinhos…

Ai, Deus, me deixa aqui, vai! Sou tão feliz neste mundinho!

Olha só, tem muita gente ainda que quero ver e matar a saudade, uma lista que, aqui entre nós dois, não tem fim! 
Amigos na Argentina, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Itália, na Austrália, já pensou? Quanta viagem ainda para eu fazer! 
Um monte de lugares para eu conhecer! 
Que máximo! Sem contar os daqui do Brasil.

Senhor, faço minha lição de casa direitinho: falo para a mãe que a amo, para o pai também falo, menos, mas falo! 
Digo isto para minhas amigas, irmãos, tios, primos, “sombrinhos” sempre que posso. Minha casa vive cheia de gente, o Senhor sabe bem como é! 
Claro, Deus, não esqueço de dizer isto para o meu filho todos os dias…
Já pensou se eu não digo bem neste dia? 
Qual dia? No dia que o Senhor me buscar, uai!

Ou ainda, tempo para abrir uma padaria, ser escritora, cantora, doutora de corações despedaçados, apaixonados, mal resolvidos, que tal? 
Quero ajudar bastante gente… Posso sonhar, não posso? 
Mas o tempo não é meu, não é? Até parece que o posso segurar!

E esforço-me para dar risada de mim mesma, das minhas desgraças, e juro que tento controlar minha impaciência, raivas, angústias, orgulho e meus medos… 
Bem sabe o Senhor que alguns destes são assustadores! 
Mas mesmo com esses “bichos” Meu Deus, obrigada por tudo, quanta coisa já me deu neste mundo para experimentar.

O som das gargalhadas com amigos, as vozes das crianças que brincam no meu quintal, as árvores que já plantei, um livro que ainda quero terminar de escrever… 
Uma família que me ensina todo dia o quanto são importantes para mim. 
Um filho maravilhoso, um parceiro apaixonado, o que mais poderia eu querer deste lado?

Desta escola, Senhor, sou-Lhe tão grata que nem tenho pressa para sair e te prometo, juro, juradinho que farei um esforço danado para ficar por aqui só mais um pouquinho. Tá bom? Um beijo Deus, te amo muito, viu?❤️🌹🙏🙏

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Fotografia Alexandre Mazzo