Pão Rosana Provençal

 

Fotografia Alexandre Mazzo

 

 
Poucas pessoas nesta vida ajudam-me a perscrutar o íntimo da alma. Mais raras ainda são aquelas que gentilmente levam-me a tatear conversas em oceanos profundos e de lá arrancar a essência do que sou, longe de melindres ou medos.
Algumas são como um porto seguro, um norte, um ponto onde sempre posso voltar para retomar, começar, continuar.
Entre elas, uma brilha feito um farol, seu nome é Rosana Modelli Kühnlein.
De olhar lânguido e ouvidos atentos, a conversa mansa, franca e paciente, ensina-me até hoje a  ordenar sentimentos e validar feitos que eu acreditava não terem importância, que possuem valores intangíveis como a construção amorosa de um lar, uma família e o amor edificado nas relações pessoais, tesouros das emoções que não se perdem num mundo de olhares materiais.
Esta é a Rô. Amiga de uma vida, candeia de fé para meus dias sem luz. O
 pão com seu nome traz para mim a verdade que existe nas singelezas da vida, na amizade que me traz tantas saudades, nas conversas acolhedoras e prazerosas  em volta da mesa rasgando a prosa num pedaço de pão.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A PRECE DE FRANCISCO DE ASSIS



O primeiro sentimento que esta prece me proporciona é um passeio à minha adolescência onde eu participava de um coral da igreja católica e durante a missa nós a cantávamos.
Hoje ao lê-la, procurei fazer uma análise mais profunda pelo caminho nada simplista deixado por  Assis.
Observei que a prece é um convite à mudança de nossos padrões de sentimento e como consequência a de comportamento.

Ao iniciar a prece Francisco a faz com um pedido:  “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz.”

Se fôssemos todos músicos entenderíamos que só se consegue harmonia quando todas as notas de um instrumento estão afinadas. Para aqueles que tiverem ouvidos de ouvir é um convite aos ajustes de nós mesmos, aos ajustes de nossas próprias imperfeições.

Não fosse isto seremos instrumentos a emitir sons em desarmonia, desafinados e fora do tom.
O convite de Assis é o exercício de ouvir-se e fazer-se ouvir como um verdadeiro instrumento afinado e regido por Deus.
Um instrumento onde pudesse expressar, conforme nos ensina a prece, a musicalidade do amor, do perdão, da união, da fé, da verdade, da esperança, da alegria e da luz.
A prece de Assis nos propõe uma reflexão sobre nossos sentimentos, um chamado para nossa reforma íntima, porque é fato que nenhum instrumento desafinado consegue levar boa música a outros ouvidos , sequer tocar um coração.
E quando estivermos em sintonia com nosso eu interior, quando este eu interior passar pela educação e compreensão dos nossos mais sombrios tons é que conseguiremos exercer a genuína musicalidade proposta na prece.

Na segunda parte, percebo a atemporalidade da prece ao usar formas verbais para expressá-la:
primeiro no infinitivo: “consolar, compreender, amar”, gramaticalmente falando, são verbos apresentados em sua forma natural, sem nenhum vínculo ao tempo, modo ou pessoa e deixa claro, pelo menos para mim, o exercício pleno da prece a qualquer tempo, por qualquer pessoa e em qualquer circunstância.

Depois, o que me chama a atenção para esta atemporalidade é uma outra forma verbal, o gerúndio: “dando, perdoando, morrendo”, usado para indicar uma ação simultânea à outra e mostra o movimento da progressão indefinida sobre o efeito da oração, o gerúndio nos dá a expressão de uma ação prolongada e em curso:
” é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”  

e encerra, em sua última linha, a reflexão viva sobre a continuidade de nossa existência: 
 ” e é morrendo que se vive para a vida eterna.”

PÃO DOCE ANA MARIA

No ano de 2013, ela veio me acolher quando eu experimentava um momento de profunda depressão.
Desbancou-se da sua casa, como se viesse numa missão de resgate para tirar-me do meu mergulho profundo.
Chacoalhou-me, deu-me voz de comando e a oportunidade para aprender algo com ela.
Nem acreditei! Ela, que está sempre ocupada com seus muitos afazeres, deu-me o mais precioso dos seus tesouros: seu tempo.
Nos dias em que esteve comigo, ensinou-me receitas, aprendi a fazer pão doce, brownie e biscoitos. Fizemos juntas. 
Era como se eu saísse por um imenso jardim a colher flores, tamanha minha alegria por conta da sua presença. 
Era como se de novo eu pudesse balançar e brincar de roda e de amarelinha… Ela nem imagina o quanto eu a amo!
Minha irmã, minha querida Ana Maria, das muitas Anas da minha vida ela se fez doce em pão e por minhas mãos fez-se Pão Doce Ana Maria.
 
 

Querida Curitiba…

Sexta de chuva, dia preguiçoso.
O frio começa a arregaçar as mangas e mostrar a que veio. Curitiba, de mil estações, ainda não encontrei a minha em você. Um dia acontece, me apaixono e nunca mais te deixo… Um dia, quem sabe… Mas até que ele chegue, vou teimar em não amar você.
Chove Curitiba, chove…
Quem sabe me convenço que a chuva é o teu querer por mim a esparramar-se voluptuoso pelo meu jardim.
Encharca os pés das minhas árvores, as heras nos muros, lava a alma das minhas flores, bendiz meu limoeiro, enverga os meus bambus, a postos, generosos e alheios ao que lhes embebe.

Chove querida, e deixe que as blandícias da noite que adentram em minha casa acalmem teu céu e me tragam de volta as estrelas….

Pensamento

 

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Branca parede

enche meus olhos de cor 

convida a bailar 

a valsa das letras

Um passo, 

Uma pausa,

Uma pauta,  

riscos breves

dançam leves, 

a doce valsa