SAUDADE

Amanheci saudade.
Chegou de mansinho e apertou meu coração…
Deixei apertar…

Fiquei saudade…

O Céu…

De tempos contemplo o céu.
Mirar infinito de ricos matizes,
Descanso os olhos em nuvens
disfarçadas de arco-íris

 

SINGELEZAS

Fotografia: Alexandre Mazzo
Passeio-me entre gramaturas de papéis couchet. Prefiro o lápis às esferográficas.
Rio de mim mesma e assumo minhas “ridiculices”.
Além dos meus amores e flores, há poucas coisas que não consigo viver sem: frutas, pão com manteiga, arroz, pipoca e café.
Estes são meus vícios e com direito a crises quando abstenho-me deles.
Raros mantêm comigo conversas longas.
Gosto da conversa farta e de cadeira. Tenho outro ritmo, sou lenta. Tenho paladares ecléticos para a observação e o pensar: “viajo na maionese”.
O tempo deu-me o verdadeiro ópio, obrigou-me a ir devagar nas generalidades do mundo, motivou-me a esperançar nas advindas e complexas singelezas por ele oferecidas e ensinou-me paciente a sensação prazerosa e feliz ao desnudá-las.

o beijo da noite

Enquanto o céu cobria o dia com os matizes da noite, fixei meu olhar no crepúsculo.
Da varanda, contemplei-o esvaindo-se multicor e parei nesta paisagem.
Na memória, o refrão de uma música: “…O melhor lugar do mundo é aqui e agora…”
Acomodei-me à cadeira e esperei passar o que dura segundos num fio de eternidade.
O vento beijou o céu com a frescura de outros ares, senti no corpo um delicioso arfar das brisas que chegavam de longe.
Os pássaros, em voos rasantes pelo peitoril da bancada, celebravam o descanso de suas asas em um frenético chilrear, uma alegre sinfonia, um bailar de assovios afinados por Deus.

Suspirei o gosto profundo da noite e deixei-me levar pelo barulho das minhas lembranças.

Sorri feliz, senti-me em paz.

ANO NOVO



Quando eu era crianca, nesta época do ano, esperávamos o almoço de Ano Novo para comemorar com a família. A festa acontecia no barracão da serraria da Vila Anizelli, na minha cidadezinha com nome de dia: Primeiro de Maio.
A mesa e bancos eram montados com tábuas e cavaletes no coração da oficina do meu avô. Era uma enorme oficina de carrocerias de madeira para caminhões. Cheia de máquinas organizadas para abrir espaço, algum trabalho ainda para meus tios terminarem depois do ano novo e um cheiro inesquecível de pó-de-serra…
Entre a criançada de primos e tios, devíamos somar quase 50 pessoas em volta daquela mesa que, para mim, parecia não ter fim de tão grande! 
Mas o mais esperado por nós, crianças, era o que meu avô Affonso nos dava. 
Na época, uma nota de um cruzeiro para cada neto. 
Esperada com uma alegria sem fim, aguardávamos a chamada na pequena varanda em frente a sua casa.
Com aquele gesto ele sempre nos dizia “- Bom princípio de Ano Novo!” 
Vô Affonso mais parecia um papai Noel com seus cabelos branquinhos e olhos muito azuis. 
E eu, dos meus olhinhos de neta, o respeitava, admirava e o achava lindo!
Com o passar do tempo, e meu avô certamente desejando um bom princípio de ano para alguns anjos no céu, a moeda passou a ser um sonho de valsa, gesto este que meu pai repetiu por muitos anos. 
Uma doce lembrança que jamais esquecerei. 
Com saudades ao lembrar desta história passo adiante a vocês um “BOM PRINCÍPIO DE ANO NOVO”,  o mesmo que meu avô tão carinhoso nos desejava e, de um outro jeito, o que meu pai até hoje nos faz.
E se possível, elogiar mais, ser gentil com qualquer pessoa, deixar as mágoas e amarguras seguirem um outro curso e procurar embalar seus dias de 2016 num doce sonho de valsa! 
É o meu desejo.
Deus te abençoe imensamente. 
Feliz, muito feliz ANO NOVO!