A PAZ E ANTONIO

Escrevi este texto em março de 2003.

Meu filho hoje (2025) tem 23 anos é lindo, amoroso, um amigo de todas as horas.


Pela manhã, ao acordar, fui até o quarto do meu filho que dormia tranqüilamente em seu berço o sono dos anjos.Antonio tem apenas 1 ano e dois meses. Passei a mão sobre sua cabeça e pedi a Deus que cuidasse do seu futuro.Pensei em tantas coisas boas que ainda quero viver ao seu lado, nas alegrias que quero dividir, nas emoções que quero compartilhar.Pedi a Deus que nos conduzisse a um mundo cheio de paz.Fiquei ali, parada olhando para ele, ouvindo sua respiração, esperando que acordasse a qualquer momento com seu maravilhoso bom humor matinal.Antonio, quando acorda, senta em seu berço e nos espera sorrindo erguendo seus pequenos braços para nos saudar em mais um dia.É luz. E é a maior expressão de vida que me impulsiona a superar quaisquer situações sobrepostas à minha correria profissional ou pessoal.Volto ao meu quadro inicial, observo brinquedos coloridos espalhados por todo o chão, aviões e caminhões estacionam nas pequenas vagas destinadas a bolas, cavalo de pau e um enorme cachorro de tecido deitado no meio do quarto. Pequenos quadros na parede, pintados a mão por mim mesma, em momentos de uma feliz cumplicidade, quando ainda estava grávida.Ao mesmo tempo em que observo Antonio mais uma vez, penso em outras mães e outros filhos, que não possuem esta rara oportunidade de amor e contemplação.E mais uma vez, agradeço a Deus por estar ali, ao seu lado apenas esperando que acorde para iniciarmos outro dia.Agradeço pela primeira hora de cada manhã, ser eu a pessoa que irá vê-lo abrir os olhinhos, abraçá-lo, segurá-lo no colo, e rir com ele!Que bom se todas as mães do mundo pudessem, ao acordar, ter alegria e paz junto aos seus pequenos filhos. Ouvir sua respiração no berço enquanto ainda dormem. Olhar seus brinquedos e saber que seus filhos são felizes naquele pequeno universo.Por outro lado, toda a imagem se desmonta, como se fossem pequenas peças de um quebra-cabeça, ao imaginar-me como as mães num mundo em guerra. Ao olhar para o meu filho tão inocente dormindo, imagino como deve ser o olhar destas mulheres para os seus filhos, o que lhes reserva a vida em meio a bombas, mísseis e miséria.Não há quartos nem brinquedos, seus filhos sujeitam-se a dormir ao relento, em caixas, em redes, ou no chão. Não há água sequer para limpar a sujeira de seus rostos, para dar-lhes o mínimo de dignidade.Enquanto isso, aqui do outro lado do mundo, meu filho começa a acordar, alegre, forte, sorridente. Já me vê em pé ao lado do berço e começa a brincar. Reflito sobre o tempo que passamos juntos e nas mães que mal conseguem dimensionar o tempo.Meu dia hoje será de orações para as mães que estão vivendo em meio à guerra. Um dia todo pedindo a Deus que as proteja e aos seus filhos. Que amanhã possam acordar deste pesadelo num quarto cheio de brinquedos coloridos olhando seus filhos dormindo em paz.

DEUS ESTEJA COM TODAS ELAS.

PÃO A QUATRO MÃOS

O dia era 06/10/2010 – Antonio (com 8 anos) e eu…

Pela manhã, enquanto preparava a massa do pão…”- Mãe, já sei o que eu vou ser quando crescer!” Disse meu filho.”- Padeiro, como você!”
Precisei conter o riso pela graça que acabava de ouvir e claro, sem contar minha corujice toda, que colocada à prova, fez-me segurar a vontade de dar um amasso nele!Colocou-se todo solícito para ajudar-me com os ingredientes e experimentar as texturas vindas da mistura que estávamos prestes a fazer. Expressões desde:”- Que legal que é o fermento!”Até outras como:”- Ai que melequento que é o ovo!”Foram ouvidas e acompanhadas das caretas mais diversas.E a conversa prosseguia:”- Mãe, agora posso por o leite?”No que eu respondia:”- Espere, meu filho, vou esquentar…”E foi mexendo.”- Mãe, posso quebrar o ovo, deixa mãe?””- Vai, filho, mas quebra numa tigelinha antes porque se cair casquinha na massa vai quebrar o dente de alguém.”Aqueci o leite e coloquei na mistura, depois pedi ao Antonio que, com as mãos bem limpas a mexesse…
Com cara de quem não estava muito a fim de “melecar” as mãos disse:”-Mas mãe, eu mexo com a colher mesmo, olha só!””- Não, filho, com a colher a gente não percebe se o açúcar derreteu todo antes de adicionar o resto dos ingredientes, entendeu?””-Entendi, mãe!”Colocou as mãos na mistura e começou a relatar sobre a temperatura do leite, sobre o açúcar que ainda não estava todo dissolvido, pediu para que eu adicionasse todos os outros ingredientes enquanto o quadro acima das bocas e caretas acontecia.
Colocamos os ovos, o óleo, e a cada novo ingrediente tinha sempre uma nova observação, quente, frio, gosmento, melequento, grudento e todos os outros “entos” possíveis.Comentei sobre a farinha integral explicando que a massa fica um pouco mais pesada que o outro pão feito com a farinha branca.E ele ali, firme e forte misturava e conversava comigo sobre a “filosofia” do pão!Amassamos juntos o pão, apertamos, batemos a massa com punhos fechados para que ela ficasse bem misturada. Enrolamos os pães, esperamos crescer e os colocamos para assar…Pão  a quatro mãos! Pão feito com o coração.

Aos que amamos















AOS QUE AMAMOS… Aos que sofrem, aos que precisam de uma palavra de carinho e conforto, aos que temos dificuldades de nos relacionar, aos afetos, aos desafetos, aos que somos ou nos sentimos inimigos… Aos irmãos do mundo uma mensagem de paz…

Hoje, quero que saiba o quanto você é importante para mim.
Quero que saiba que desde que me aceitou caminhar ao teu lado eu também me importo com você.
Quero que saiba que apesar de todas as tribulações que estamos vivendo eu não deixo de ver, ouvir ou sentir a tua preocupação, o teu entusiasmo e a tua alegria de viver.
Você faz a diferença na minha vida.
E todos os dias quando eu acordo peço a Deus que te abençoe e a tua família.
Eu sei e entendo que às vezes pode não parecer isto, mas creia, que do fundo do meu coração eu só desejo que você esteja bem e feliz.
Eu só desejo que você esteja em paz e faça do teu dia o melhor dia de todos.
Porque só assim eu poderei também me sentir feliz. 

Muito feliz.
Deus te abençoe.



EDUCAÇÃO CABE EM QUALQUER LUGAR…

Este texto foi escrito em fevereiro de 2011…

Mãe e pai, Natal de 2005 – fotografia: Alexandre Mazzo


Hoje pela manhã li um assunto que falava sobre cavalheirismo…

E ao escrever fui “trocar ideias” com meus botões  para continuar minhas conjecturas…

Lembrei das referências que tive e que deram-me base para o aprendizado na escola da vida… Melhor, a minha maior referência, ou deveria dizer reVerência…



O “seu” Gena.

Meu pai não possui o segundo grau completo. 

Quando eu era criança não havia um dia sequer de não vê-lo debruçado na leitura de um livro, jornal ou revista. 

Pergunte qualquer assunto, seja de que área ou atividade for, ele saberá conversar e expressar suas opiniões a respeito. 

Ele tem sempre uma piada ou uma história engraçada, um “causo”, dos muitos que ouviu e viveu para contar. 
Meu pai fará 73 anos, dos quais 62 foram dedicados à farmácia onde é proprietário e trabalha até hoje. 


Quando viajo até sua casa, tem sempre um doce, uma comida ou uma fruta diferente, que ele compra para me agradar. 
Sem contar nos muitos tucunarés congelados que ele me manda por sedex! 

Quando criança, ele desde cedo nos ensinou a não sermos inconvenientes, a não nos intrometermos em assuntos de adultos e me lembro até hoje do seu olhar de censura quando fomos visitar um amigo dele e da porta fui chamando: 

“- … ô Zé Baiano!” 

Vixi! O sermão que eu ouvi ali mesmo antes de colocar o pé dentro da casa: 
“- Como é que você chega na casa dos outros chamando a pessoa deste jeito?” 
“- E se a esposa não gostar que o chamem assim?”
… Ai, ai, ai… 
Dentro de casa eu ouvia o tempo todo meu pai referir-se a este amigo como o “Zé Baiano”, como é que eu poderia saber se a esposa dele não gostava disto?

Até hoje sinto a censura ao perceber que “exagerei” nas apresentações…
Ok, ok, haja terapia para resolver este “trauma do Zé Baiano” e outros nordestinos também!


E assim foi… “De bronca em bronca” e por conta do perfil comerciante de meu pai, aprendi a lidar com algumas pessoas, a respeitar o outro, a ser gentil… 

Quantas pessoas saem das universidades com títulos e MBAs capazes de preencher as paredes da sala da minha casa, que não é pequena, mas ficam em recuperação e alguns reprovam na disciplina “educação”…
Quantas vezes ouço mães com filhos na idade do meu Antonio preocupadas em preparar seus filhos para o mercado de trabalho, para o futuro… Mas eles só tem 9 anos! Puxa!

Deus, o futuro não me pertence…
Mas que eu não me descuide da educação do meu filho em nenhum momento, por favor, nem daquela ensinada na escola!

Vivemos na correria para tudo e esquecemos o básico: parar para educar nossas emoções. Cuidar, rever, abraçá-la como amor primeiro.
Educação de dentro para fora. Olhar-se, tratar-se, curar-se.

E trago à memória muitos exemplos do meu pai, dos meus avós e como diz Arnaldo Antunes “antes deles tantos antes de nós…” 

Para lembrar que a educação que escrevo aqui é aquela que vem de berço, não é comprada em prateleiras de supermercados ou nas grifes de lindas lojas nos shopping centers, não vem embalada em belas caixas com laços de cetim, não são os títulos conquistados ao longo da vida, a posição social e profissional conquistadas. Não. Não está fora, está dentro. Esta é a verdadeira educação. 
Há muito mais lixeiros, faxineiros e outros “eiros” educados do que doutores empertigados pelas ruas.

Educação, antes de tudo, é autoconhecimento, um exercício contínuo de humildade e superação, um esforço em vencer nossas más tendências e melhorar-nos todos os dias. 

A partir da minha casa, na infância, aprendi com os exemplos e atitudes dos meus pais. 
Via meu pai beijar minha mãe todos os dias ao chegar e voltar do trabalho, de nunca discutirem na minha frente ou de meus irmãos. 
O que trago hoje veio da  honestidade que ambos imprimiram-me à alma, dos valores morais e das responsabilidades que fui adquirindo em paralelo ao meu aprendizado escolar, das preciosas orientações e cuidados que tive dele e de minha mãe no decorrer da minha adolescência. Cada qual à sua maneira, do seu jeito.
Enquanto filhos, não podemos esquecer do quanto potencializamos o que apreendemos dos exemplos dos nossos pais e, da mesma forma,  assim faremos com os nossos filhos, ou com aqueles que nos observam e nos apontam como suas referências. É muita responsabilidade, não?

Acredito que a pessoa genuinamente educada poderá ser vista, como já mencionei, no lixeiro que todos os dias limpa nossas ruas e recolhe nossos dejetos. 
Na faxineira – anônima e a postos – nos supermercados e shoppings da vida onde nós distraídos displicentes vamos fazer nossas compras. 
A pessoa educada não apresenta os sintomas afetados de atitudes ensaiadas é da sua natureza ser gentil com as pessoas, com qualquer pessoa.
Tudo o que somos, começa dentro de casa, numa célula, a nossa pequena célula familiar. 
Nada se conquista ou se constrói sem esforço, tempo e ações conjuntas, um dia alguém já disse: o que educa cura, o que cura educa.






Mariana, Biscuit…

“Você é meu amor, você é minha vida, você é minha paixão e eu adoro você!”


Pequenininha, com cara de sapeca, cabelo enroladinho que parece “molinha de binga”, e garanto que nem sabe o que é isto…
Quando criança, minha irmã insistia em vesti-la de moleque…
E eu tirava fotos dela de todo o jeito. 
Quando nasceu, até as sobrancelhas eram vermelhas e a pele era branca como se fosse lavada com sabão em pó! Gorda, que parecia um pão cheio de dobrinhas. 
Quando dançava, rodopiava e batia só um pé no chão. 
Eu não sabia que dança era aquela, mas ela divertia-se até ficar zonza na sua brincadeira. 

Um dia, quando tinha 5 ou 6 anos, ao sair para passear com sua mãe,  preocupada em não me deixar sozinha avisou-me solene: 
” – Tia, eu vou falar com o seu  José para ficar com você!”…
Detalhe, seu José ao qual ela se referia, era o porteiro do prédio!  

Foto: Celi Mazzo


Era um “bisquizinho”. 
Passeava para lá e para cá balançando seus cachinhos e perdoe-me falar com tantos diminutivos, mas crianças fazem isto comigo.


Mariana hoje, aos 25 anos, é uma “pequena notável” !
Com a sua ajuda, um pouco antes do Natal, pude resolver uma das questões mais difíceis da minha vida.  
Emociono-me o tempo todo ao lembrar do que aconteceu e sou-lhe grata por isto. 

Biscuit, minha linda, nos riscos e rabiscos de nossas histórias de novo estamos mais próximas. 

Adoro prosear com você. 
Deixo aqui este pequeno registro do meu amor por você. 

Deus te abençoe, beijos, tia Celi.

P.S.: e você sabe o quanto estou chorando por aqui.