Foi Assim:
Estávamos todas em ordem, enfileiradas cada uma na sua vez.
Todas Marias da mesma família.
Aguardávamos brincando, fazendo planos, contando histórias divertidas de como seria estarmos todas juntas.
Em meio à preparação, uma de nós disse:
“- Eu posso mudar meu nome? Não quero chamar Maria.”
Repentino silêncio.
A pergunta inesperada paralizou-nos a todas.
Como não querer ser Maria?
Perguntávamos umas às outras.
Entreolhamo-nos controversas, pedimos uma explicação.
E ela veio simples como resposta de criança:
“-Porque não.”
Por um instante ficamos tristes, mas logo a tristeza passou e continuamos a rir, brincar e tagarelar.
Maria Um sabia que teria um nome antes do seu e mais do que nós outras, vivia com réguas, lápis e enormes papéis.
Andava atarefada para lá e para cá, pensava, organizava, mudava tudo com sua inseparável agenda que carregava debaixo do braço. Ai dela se a perdesse!
Media, riscava, explicava, apagava o que tinha feito e fazia de novo.
Curiosas, prestávamos atenção a uma de suas explicações, quando uma voz grave interrompeu nossa reunião:
“- Número Um!”
Sabíamos que era a hora de ir.
Despedimo-nos, abraçamo-nos e lá se foi a primeira Maria e um banquinho ficou vazio.
Quando em vez, nós seis, olhávamos para ele com saudade da que foi.
Passou…
Maria Dois dizia que queria conhecer o mundo, viajar para outros lugares, conhecer outras gentes.
Enquanto falava, o tempo todo espremia os olhinhos para encontrar um enorme sorriso.
Acho que ela estava feliz.
Tínhamos um objetivo para alcançar, conversávamos sobre ele quando ouvimos pela segunda vez, a mesma voz a chamar:
” – Número Dois!”
E lá se foi mais uma Maria.
Despedimo-nos, abraçamo-nos.
Dois banquinhos ficaram vazios.
Tínhamos tempo para brincar, conversar, desenhar nossos projetos.
Estudávamos atentamente todas as recomendações que havíamos recebido, palavra por palavra, linha por linha.
Maria Três sabia que, teria igual à numero Um, um nome antes do seu.
Maria Três, não sei por que estava sempre brava ou será que vivia preocupada?
Ela não falava muito, parecia que não gostava, mas contou-nos lindas histórias de mares e terras que iria aprender.
Mais um tempo e a voz de novo:
“- Número Três!”
Despedimo-nos, abraçamo-nos e lá se foi a terceira Maria.
Agora éramos quatro a esperar a nossa vez.
Maria Quatro era a mais quieta. Era a que mais observava tudo.
E nunca soubemos o que a fez mudar o nome. Talvez fosse intuição.
Mais um tempo e a voz exclamou:
“- Número Quatro!”
Ela se levantou, despediu-se, abraçou-nos e quando estava por sair, a voz ainda perguntou:
“-Quanto ao nome, quereis mantê-lo como pedistes?”
Ficamos a olhar a número Quatro, que decidida respondeu:
“-Sim.”
Então, despedimo-nos mais uma vez, abraçamo-nos e ela se foi.
E o quarto banquinho ficou vazio.
Nós olhávamos para os banquinhos, com saudades das três Marias que se foram.
Sim, Marias são sempre Marias, mesmo que não queiram!
Sabíamos que logo estaríamos todas juntas de novo, numa casa com quintal enorme, cheio de árvores para brincar e correr.
Maria Cinco, era a próxima e preparava-se.
Austera, estudava, estudava e lia e lia todas as instruções sem deixar passar uma vírgula.
Achei que teria dor nas vistas de tanto que se metia nos livros.
Adorava brincar com as palavras, nunca vi daquele jeito e vivia a me dizer:
“- Não te deixareis me esquecer.”
E por mais que eu perguntasse o que aquilo significava, ela apenas sorria e dizia:
“- Não te deixareis me esquecer.”
Chegou a hora, e a voz chamou-a com solene reverência:
“- Número Cinco!”
Abraçamo-nos, despedimo-nos e deixou seu banquinho vazio.
Maria Seis e eu ficamos ali, trocando idéias, conversando baixinho o pouco tempo que nos restava.
Dividíamos uma caixinha com papéis perfumados e outra cheia de lápis de cor.
Passávamos horas debruçadas em cima dos desenhos que coloríamos ao sabor dos perfumes que aquelas cores exalavam.
Perguntou-me:
“- Quer ir na minha vez? Eu posso esperar.”
Olhei-a longamente e pensei:
“Dela sentiria mais saudades, bem sabia.
Foi com ela que fiquei mais tempo, que dei mais risadas e aprendi a fazer delicados desenhos e a gostar das cores…Dela teria mais lembranças era certo.
Sentiria mais saudades, bem sabia.”
Então disse:
“- Não, Maria. Saberei esperar, agora será a tua vez.”
A voz chamou e Maria Seis se foi.
Sentava-me no último banquinho.
Olhei para o lado para ter certeza se não havia mais nenhum ali.
Esperei, esperei…
Incomodada estava com o silêncio, com o tempo e com a voz que não vinha.
Andava de um lado para outro, esperei mais um pouco… E nada!
Já era hora da voz me chamar também…
Nada…Tudo quieto…
Quase um cochilo e…
“- Número Sete!”
Que susto! Num sobressalto, abri bem os olhos e pulei do banquinho!
“Até que enfim.” Pensei.
“- Mudança de planos! Precisamos correr!”
Disse-me a voz em tom preocupado.
“- Mudança de Planos? Como Assim?” Perguntei.
” – Não há tempo para respostas agora. Te daremos sinais, deixaremos pistas, saberás o que fazer!”
” – Mas como saberei?”
” – Confie, saberás.”
Tropecei no meu banquinho, ninguém para me despedir, para me abraçar nem explicar, num choro contido me fui… Cadê minhas Marias?
E a voz continuou:
“- Confie, saberás.”
Nunca mais ouvi a voz.
Não lembrava das Marias.
Nem sinais.
Pistas então, menos ainda.
Fez-se o esquecimento.
Foi-se o tempo.
Entre réguas rabisquei uma vida, procurei-me com esforço nas letras, silenciosa esperancei o ensejo do encontro e um dia… As Marias? Quem diria, encontrei-as! Eis que as vejo!