SHANGRI-LÁ

É de manhã.
O sol levanta-se para dourar o domingo de férias na praia de Shangri-lá.
Como nos desenhos animados, o perfume do café que chega da cozinha faz cócegas no meu nariz e me pede para acordar. É dia de visitar Nosso Senhor.
Perco-me em detalhes, a memória não se ajusta mais às cores que a retina traduz, mas sei que é dia de ir à missa.
Estamos de férias e o despertar barulhento das crianças pela casa em dias felizes de ócio familiar chega como música aos meus ouvidos.
Tem cheiro de vida!
Deixamos a casa e saímos a pé pelas ruas de areia. Na manhã fresca, o céu azul anunciava que teríamos um lindo dia de sol.
O silêncio durante a caminhada era quebrado pelo barulho das pedrinhas em atrito com nossos calçados e era o som mais gostoso de ouvir.
Meu pai, vez ou outra, nos explicava e ensinava coisas do céu, da terra e do ar.
Chamava nossa atenção para olharmos atentos para as curiosidades do lugar ou nos contava, neste dia, alguma história engraçada que havia vivido. (Ele faz isso até hoje).
Eu, ao longo da vida, registrava e guardava nas minhas pequenas gavetas pensantes algo que, num futuro, pudesse avivar com meus filhos.
Lembro-me de escutá-lo atenta, feliz e orgulhosa até chegarmos à capela feita de madeira em terreno ainda sem vizinhos. A missa já havia começado, entramos respeitosamente e nos acomodamos.
Para mim, a pequena capela era pintada de azul bem clarinho. Pelas janelas o sol começava a abraçar o ambiente e nos avisava do belo domingo que teríamos.
E dentro dos ritos, eu me sento, levanto, me ajoelho e oro…
Não vou lembrar da homilia, mas lembro vivamente daquelas vozes a cantar uma linda canção.
Era um coral de freirinhas, vozes afinadas e sem nenhum acompanhamento. Lindo, celestial!
Ao ouvi-las, meu pai já nos fez um sinal de surpresa e contentamento como se a nos lembrar do que ensinava pelo caminho.
Doces lembranças da minha infância e das nossas férias em Shangri-lá.

O SENTIDO DA VIDA

Para mim, ele está muito alinhado com o nosso PROPÓSITO NESTA VIDA. Ele existe todos os dias, não é único, nem excludente, mas dinâmico, orgânico e abrangente. Ele está em tudo e em todas as coisas…

O que dá sentido à vida é intangível e fora de escala.
Não pode ser medido, comprado ou vendido.
É pessoal e intransferível.
E em cada momento da vida muda, transmuta, ressignifica, ganha mais ou menos intensidade e, se assim posso dizer, cor!
Vai além da matéria, do toque, do que ouvimos ou dizemos.
No final, entendemos que reside no mais puro sentimento das coisas simples, no arrepio da alma, na batida forte do nosso coração.
Sentir a emoção que cada experiência nos proporciona, senti-la no canto mais íntimo e silencioso de nosso próprio ser.
Se tem nome? Não sei, eu o chamo amor.

EL ABRAZO

El abrazo que yo no puedo darte.
Te llega en forma de oración;
O de un pensamiento
O de un recuerdo,
O de algo que me gustaría compartir.

Va en el aroma de la comida que acabo de preparar,
en la especia que he utilizado,
en un paisaje que acabo de ver,
en una canción que acabo de escuchar...

El abrazo que no puedo darte,
Vuela rápido, no puedo retenerlo
Se va en un suspiro, se va en el viento

Te abrazo de tantas maneras,
En una canción, en un verso,
En el pan que haré un día
Y juntos compartiremos

El abrazo que no puedo darte
Sólo puedo hacerte sentir
Un abrazo mío y de Dios,
Un abrazo que te traiga paz
Un abrazo que te haga sonreír.

Un abrazo para mi querido amigo Juan, que me enseñó a sentir el abrazo de Dios

EU NO MUNDO

Talvez eu seja condenada por ter olhos claros.

Talvez eu seja condenada pela minha ascendência italiana.

Talvez eu tenha que me disfarçar quando andar pelas ruas porque tenho a pele clara… Vermelha, quando tomo sol.

Talvez eu seja censurada por gostar de escrever sobre as minhas próprias dores e amar conversas profundas. Mesmo sem você querer saber o que me fez ser assim.

Talvez eu seja cancelada por aqueles que pensam diferente de mim, mesmo se dizendo amigos, mesmo acreditando termos tantas coisas em comum.

Talvez eu seja bloqueada só por respeitar sua opinião e não querer entrar em contendas desnecessárias em respeito e consideração à nossa amizade.

Talvez eu seja julgada porque tento ser educada e gentil num mundo onde já está tão difícil reconciliações e seja considerada “fake”, ou um “ET” por me esforçar em continuar, em insistir ser assim.

Talvez você não me queira mais por perto porque eu não professo a sua crença e porque acredito em vida além da vida, cristais, feng shui, discos voadores, extraterrestres e teorias da conspiração. E, pra piorar, eu converso com as plantas e animais também.

Talvez eu não caiba mais na sua vida porque acredito na expansão de consciência, na unicidade do todo e, especialmente, sou cristã e temente a Deus.

Talvez, e isso pode ser o que vai pegar, eu seja sentenciada, condenada sem direito às instâncias que forem por ter nascido branca, pobre, de parto normal, na casa dos meus pais, pelas mãos da vó Jordelina…

Uma mulher preta, doceira, arretada e baiana.

Agora sim, o bicho vai pegar🙏

✍️Celi Anizelli