Viagem

VIAGEM

Vai alma para outros ares

Ouve o inaudível, o incompreensível,

o que já não é mais de mim.

Rasgos de céu, estrelas pontiagudas

Trapos de dor na noite fria

Sofria.

Foto:Alexandre Mazzo

Do pão ao pão

5D4D0A3C-599F-43E0-B9B2-0D1E73AB7400-1872-000003969FAB7594

Fotografia: #alexandremazzo

Minha mãe sempre me disse:
” – Filha, você tem uma missão importante nessa vida, você é diferente.”
De menina, como entender o que seria “diferente” ou “missão”?
Para mim, nada nessa vida acontece por acaso e o que é nosso vem a seu tempo.
Depois de uma tentativa frustrada de preparar uma receita sozinha e o pão ficar duro feito pedra, achando que não levaria jeito para a coisa, fui aprender a fazer pão com ela, minha mãe, há pelo menos uns 15 anos.
Pegamos uma receita e conseguimos produzir quase cem lindos pãezinhos numa fornada só! Nossa! Que alegria!
A partir daí, os pães eram feitos toda semana na minha casa para a família e amigos que passavam para tomar café e prosear. Eu os fazia sem nenhuma pretensão, não pensava neles como um negócio ou como Ofício. E como adorava fazê-los!

Foi em 2013 que uma baita crise depressiva me pegou. Estava sem perspectiva de trabalho e fazendo alguns pães sob encomenda. Receitas que eu mesma criava, produzia e vendia. Mas tudo ia muito devagar.
Na época, alguns amigos me aconselharam a procurar um curso de panificação. Coisa que eu olhava com uma certa desconfiança… Será? Por alguns anos, gerenciei uma empresa na área de logística de distribuição e não conseguia me ver fora do modelo cartesiano de trabalho. Nem eu, nem meus familiares. Imagine ouvir: “De novo em crise! De novo você não sabe o que quer! O tempo está passando e não será tão fácil se recolocar no mercado. Você tem que arrumar um emprego logo…” Traduzindo: Você tem quase 52 anos e está ficando velha!
Pois é!

 

Em março do mesmo ano, o reencontro com uma amiga – Vera Baptista – fez o talento despertar. Minhas lembranças eram vivas do quintal da casa dela, na cidadezinha de Primeiro de Maio, onde eu, quando criança, jogava bola queimada com suas filhas e uma turma de meninas. Um quintal enorme e mágico que me permitiu brincar e dele guardar
muitas memórias afetivas.
Foi uma imensa alegria revê-la. Compartilhar lembranças e contar detalhes daquele quintal renderam para nós longas e emocionadas conversas. D. Vera me mostrou o talento que eu não via e me impulsionou a fazer o curso de pães.
Sinto-me comovida ao lembrar dessa especial convivência ao lado dela e pensar que se as pessoas têm realmente alguma missão nesse mundo a dela foi, sem dúvida, a de fazer encontrar o meu caminho pelo pão.
A tarefa seguinte seria buscar um curso, uma escola, algo que pudesse estar no meu orçamento e me indicaram a Escola Profissional Ruth Junqueira que, naquele ano, ainda oferecia cursos gratuitos de formação na área de panificação. E lá fui eu animada com a ideia de fazer pães, descobrindo minha vocação para o Ofício. A escola causou-me surpresa pela organização, profissionalismo e didática. Foram os primeiros passos que eu precisava para iniciar.
Nesse caminho outro anjo me ajudou: Helma Thomaz. O horário das aulas do curso coincidia com o turno escolar do meu filho e se não fosse ela a cuidar do Antonio para mim eu não estaria aqui hoje escrevendo esse texto contando minha história. Assim foi.
Durante o período do curso, no final da tarde, eu levava agradecida os pães quentinhos que eu havia feito para as “anjas”. D. Vera, essa mãe do coração, partiu em janeiro de 2017 e, como toda mãe, ela viverá em mim em cada pão e em cada sonho realizado.

Eu mal sabia quantas histórias ainda viriam pela frente.
Nestes quase 5 anos de caminhada, depois de realmente decidir colocar as mãos na massa, fiz amigos de Norte a Sul desse país. Padeiros artesãos me inspiram por aqui e do outro lado do mundo. Nutro por essa irmandade do pão um enorme sentimento de gratidão. Ensinam-me que o necessário para se dar bem nesse ofício é não desistir, ser firme no meu propósito por mais adversidades que apareçam.
Começar, recomeçar, refazer, não desistir. Persistir.Dar o meu melhor, fazer com amor. Ter humildade.

O caminho do pão só tem resultados depois de muito trabalho e persistência. Não só nesse Ofício, mas em qualquer área da vida que decidir trabalhar. Quanto mais você fizer, mais ganhará experiência, confiança, credibilidade. E eu estou só no começo.
Aprender a respeitar os que vieram antes e abriram caminho. Respeitar aquele que trabalha e produz diferente do que faço. Respeitar para também ser respeitada. O pão está no mundo e o mundo está no pão. Há espaço para todos, de todos os tipos e nacionalidades.
O pão é o alimento mais democrático que conheço.
Por isso não levante bandeiras com o pão, derrube fronteiras por ele.
Faça o seu pão e, quando possível, convide alguém para compartilhá-lo.
No início eu parecia uma maluca! Só falava de pão, só pensava em pão, pão, pão… (Risos) Meu marido diz que eu continuo assim até hoje! Mas é isso mesmo. Depois, nos acalmamos e, quando passa a euforia, o trabalho flui. É importante saber que para produzir pães todos os dias exige-se disciplina, muito esforço e boa vontade para entregar um pão fresquinho, artesanal, feito um por um e, algumas vezes, personalizado, exclusivo. Lembrar que, com horários definidos para a comercialização, é preciso uma rotina
espartana e compromisso sério com o cliente.
Não tem glamour com o pão, tem muito amor e trabalho.

Nas Oficinas que organizo aqui em Curitiba, o que me deixa feliz é quando vejo um aluno emocionado com o pão que faz. E minha mãe tinha razão quando disse a respeito de ter uma missão nessa vida. A minha com certeza é ensinar a fazer pão! Nas aulas, brinco que todo aluno deve se EMPÃODERAR! (Risos)
Repito sempre que o maior ensinamento sobre o sucesso quem escreveu foi Cora Coralina: “nada do que vivemos ou sentimos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas.”

Para o futuro eu tenho um projeto, um sonho: formar um pequeno núcleo de padeiros artesãos. Daqueles que entendem como usar a matemática para criar novas receitas, equilibrar fórmulas, combinar especiarias, ervas, sementes a partir dos 4 elementos fundamentais do pão: farinha, água, fermento e sal. Ter nesse espaço um lugar para estudos, pesquisas e experiências como num verdadeiro laboratório. Formar padeiros que não só operem máquinas ou se prendam a receitas, mas que também estudem e conheçam a história do pão, suas origens, seus caminhos e sua evolução.
Quem sabe até lá, ter minha própria loja e ter a honra de sentar com você para partilharmos um pouco da vida e do pão!
Fotografia: Alexandre Mazzo