Belo

O belo não carece de barulho,
para senti-lo
carece de silêncio 

D. Vera, minha mãe do coração.

Fotografia: Roberto Custódio – Gazeta do Povo
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/especiais/perfil/sangrim-e-sanhaco-3srgxunmtup7tda35odmx8u32
Eu morava em Primeiro de Maio… minha mãe a Aninha, meu pai, o Gena da Farmácia… das lembranças de infância um pouco da minha história com ela, D. Vera.
Era um quintal enorme, onde, na minha memória de menina, guardava boas lembranças.
A casa, nos fundos do hospital, era dividida em duas partes: de um lado, a biblioteca, os banheiros e quartos… De outro a copa, cozinha e a lavanderia. Um pátio de cimento vermelho entre uma e outra com enormes árvores nos dando sombra fresca entre elas.
Eu achava aquilo tudo muito diferente.
As árvores, que não me vou lembrar o nome, soltavam pequenas vagens no cimento avermelhado e, quando secas, eu as estalava com os pés num alegre crec-crec.
Atenta, eu observava as meninas: seis irmãs, uma mais bonita que a outra, a passearem num ir e vir de férias naquele quintal. Eu devia ter entre seis ou sete anos e, no meu olhar telescópico, via de longe a Anna e a Malu entre conversas, sentadas na escada da varanda.
A retina da menina curiosa, gravava sem querer,imagens que um dia seriam despertadas vivamente em doces conversas.
Mas, naquele momento, fiz-me parte daquele cenário sem nenhum pudor em me deixar pertencer.
D. Vera descia as escadinhas do hospital para a varanda em passadas firmes e silenciosas… Lá vinha ela para saber o que estava acontecendo…Vestia-se como enfermeira: de saia e camisa sempre de cores claras e ao andar, seus sapatos não faziam barulho… Eu lhe nutria um respeito solene. Morria de medo que me desse uma bronca, mas isto nunca aconteceu… Logo passava e ia até a copa… Acho que para dar instruções às suas funcionárias, sobre o almoço, sobre a limpeza e ordem da casa. Também me lembro do cantinho reservado ao Dr. Milton, um cantinho na copa para ele sentar e ler seu jornal todos os dias.
Das minhas memórias afetivas lembro-me como se fosse hoje do aroma exalado pela estante de madeira que havia na biblioteca da casa, dos sofás vermelhos que, muitas vezes, eu ficava esperando as meninas se trocarem para irmos brincar.
Lembro-me da Malu, a de sorriso largo e a Anna, a de olhar sério e compenetrado.
Perscrutando as lembranças, avisto a Jose… De pés descalços, balançava-se na rede e lia, lia muito nas tardes quentes e ensolaradas, que nos abraçavam em muitos verões.
Depois, passa por mim num rasgo de imagem, bem quieta, a Verinha. Silenciosa, tímida, passa, feito a mãe… Olha tudo e segue quieta lá para a copa… Fiquei feliz quando soube que o dia do seu aniversário era um dia antes do meu! Não sei, acho que me senti mais próxima… Coisas de menina!
Em outro instante, de andar firme e determinada, parecia estar sempre brava com alguma coisa por trás dos seus óculos de grau… Essa era a Chris. Eu achava que ela era muito brava e procurava manter-me fora do alcance das suas vistas… Mas guardo uma curiosidade… Eu gostava de vê-la bebendo água… Achava bonito, só isso!
Em breves rasantes no pensamento de menina, detenho-me nos cadernos e lápis da Maria. Eu, dois anos mais nova que ela, ficava encantada com a novidade do desenho copy e com seu penal cheio de lápis de cor. Coisas de Curitiba, da cidade onde ela estudava. Deitávamos de barriga pra baixo na varanda e ficava encantada com aquela mágica que o desenho copy fazia. Percepções de criança extra-quintal!
Das árvores, sinto a frescura nas sombras enormes dos flamboyants e quero crer que havia uma paineira a esparramar seus brancos flocos de algodão na esquina do quintal. Lá no fundo, e corrijam-me as irmãs, uma acácia generosa oferecia exuberantes cachos de flores amarelas.
Ainda na memória, pincela a tinta das flores vermelhas com nome de Espírito Santo, molduras formosas daquele lugar.
Brincávamos de circo nos balanços improvisados, jogávamos bola queimada com tantas outras meninas, vizinhas, irmãs e amigas. Um monte de vozes e gritos alegres debaixo de um sol de estalar!
Guardo ainda muitas lembranças… Dos primos que vinham passar as férias, dos primeiros netos, do banco de areia que o avô colocou em baixo do flamboyant para brincarmos… Sim, como eu disse, deixei-me pertencer àquele quintal…
Fiz da Bolica minha amiga também, eu adorava estar ali!
Do quintal que me traz lembranças tão vivas, trouxe-me o reencontro com a mãe e as irmãs.
D. Vera…
Mencionar seus feitos seria pouco. O extraordinário desta mulher foi a capacidade amorosa de me fazer perceber que eu poderia ter condições de ser mais. Ela me fez enxergar mais longe.
Emprestou-me seus olhos para ver o quanto eu era capaz e que eu poderia acreditar num sonho. Acreditar em mim.
Reencontrei-a 40 anos depois, como a descobrir um tesouro, cheio de histórias preciosas para comigo dividir.
O reencontro foi uma emoção muito grande para nós duas. E aqui nesta terra, distante dos meus, adotei-a como mãe do coração e dela sinto falta todos os dias.
Por muitas vezes em nossos encontros, enquanto eu segurava suas mãos, D. Vera ouvia-me amorosa, permitia-me chorar e abrir meu coração para eu lhe contar minhas histórias e sonhar meus projetos.
Memórias revividas, nos distraíamos por horas em longas conversas sobre outros tempos e sobre hoje.
Foi ela quem me impulsionou a fazer o curso de pães…
Foi o toque dela na minha alma que me encorajou a seguir adiante.
Quase todos os dias, depois do curso, passava para lhe dar um abraço ou levar um pão quentinho que eu havia feito…
Quando terminei as aulas de panificação, em 2013, quis fazer um pão especial para ela porque, por recomendação médica, D. Vera só podia comer pão integral…Disse-lhe que este pão seria dela e que eu o chamaria de Pão Vera.
Ela a princípio, concordou…
Fiz este pão incontáveis vezes para acertar a fórmula.
Até que pudesse ficar bom.
Lembro-me que em um de nossos muitos encontros, ela me chamou e fez um pedido:
“- Celi, já que este pão é meu, posso mudar o nome dele?”
Respondi um tanto ressabiada:
” – Claro, querida, o pão é seu, qual o nome que a Senhora quer dar?”
E ela me devolveu com os olhos brilhando: ” – Veruska, com K !”
E eu curiosa: “- Veruska com K? Por que Veruska?”
E ela sorrindo: ” – Porque era assim que papai me chamava: Veruska.”
Minha linda mãe do coração, que Jesus neste momento te abrace e te acolha pela mulher que é. Tua alma viverá feliz no meu coração e no coração de tantas pessoas que você confiou e acreditou que poderiam ser melhores e conseguiram ser.
Anna, Malu, Chris, Verinha, Jose e Maria… Obrigada por me permitirem ser portadora desta singela homenagem. Vocês serão para sempre minhas irmãs. Seis estrelas que pontuam meu firmamento.
Que nossa mãe, onde estiver, possa continuar seu trabalho e levar sua amorosidade a tantas almas necessitadas de carinho, afeto e luz.
Deus as abençoe imensamente. Muito, muito obrigada.
Com carinho,
Celi, a número sete.
Curitiba, 16 de janeiro de 2017.