CARAMUJO E EU
(um pequeno conto para minha sobrinha Aninha… A Florzinha mais linda do meu jardim.)
Caramujo me conheceu no quintal.
Desde longe eu o via. Fiz da bancada de madeira de eucalipto, embaixo das pitangueiras, o meu mirante, e dos meus olhos a luneta. Durante longos dias encolhia e esticava arrastando-se devagar.
Atravessou cauteloso o cimento e camuflava-se vez ou outra debaixo das ervas daninhas escondendo-se dos voos rasantes dos sabiás-laranjeira!
Vinha solene e lento, fosse em dias de chuva, em dias nublados, ou em dias de sol. Nada o destituía do seu intento que parecia ser: chegar do outro lado do quintal.
Não sei ao certo quantas luas se passaram, mas foram muitas.
Vi o corajoso caramujo esticar-se para dentro e para fora da sua casca, lento, mas tão lento que me perdia em bocejos e distraia-me entre o chilrear de passarinhos e os cantares estridentes de cigarras.
Enquanto eu me compadecia das velhas amigas pitangueiras, que ora soltavam suas folhas secas, ora suas flores sujavam meu quintal, ele atravessava o áspero e frio cimento impavidamente.
Quando caramujo encaramujava para descansar, eu o imitava. Por vezes não desejei que me achasse hostil bem ali a espreitá-lo. Imagine se ele resolvesse dar meia volta e ir embora? Nossa! Nem pensar!
Aquietava-me em longas esperas a observá-lo.
Um dia, decidi esperar e ficar mais tempo a olhar curiosa para aquela sôfrega travessia. Esperei, esperei…
Quando me dei conta, muitos cometas já haviam riscado o céu e a lua passava mais de uma vez dando-me adeus. E sabe de uma coisa? Cansei.
Deixei lá o caramujo em seu hercúleo esforço de passagem transcontinental e fui telefonar para minha mãe que também mora muito longe…
Outras luas se passaram, cometas riscaram o céu, estrelas cadentes caíram… E tudo continuava igual.
Um belo dia, lembro que era uma quarta-feira, e logo de manhã, ansiosa, alcancei o mirante de eucalipto. Estava um lindo dia de sol, ajustei a luneta e aquietei-me para observar.
Sentei, olhei o céu, o vento continuava a chacoalhar os galhos quase pelados das pitangueiras que insistiam em sujar o meu quintal.
Avistei meu limoeiro lá do outro lado suspirando em deixar cair os seus últimos limões para a próxima florada. O maracujá, esforçado, enroscava-se no bambu em direção ao infinito e além. Encontrava-se rumo aos céus para ouvir as cantigas silvestres das gêmeas ora-pro-nóbis recém chegadas da serra. Eram muito religiosas e rezavam pelo bem de todas as vidas daquele jardim. Eram pequenas ainda, mas sabiam que em breve teriam galhos fortes para acolher os que mais precisassem com suas folhas suculentas de pura vida!
Distraída, distraí-me do tempo. Não fosse o bater de asas do amigo beija-flor eu teria dormido ali mesmo!
Pisquei os olhos mil vezes… E o caramujo? Perdi? Sumiu!
Gente, onde ele foi? Procurei, procurei e nada! Santas Pitangueiras cadê ele?
Fiquei parada, bem preocupada, já nem sabia mais o que fazer, ai, ai, ai… cadê você caramujo?
Num silêncio quintalnesco apurei os ouvidos e bem do meu lado escutei um…
– “Tsc, tsc, tsc…”
Nem acredito! Bem do meu lado, era ele! Todo empertigado com sua casca lustrada de cor marrom-ocre-dourado!
Olhou-me, olhei-o, ficamos assim, em silêncio solene por alguns minutos ainda.
E juntos olhamos o horizonte do jardim.
Acho que ele estava cansado. Esperei alguns segundos…
Então, não me contive e perguntei:
-Sr. Caramujo, achei que o tivesse perdido, ou que algum sabiá o tivesse comido, ou sei lá se afogado na chuva, levado por um pé de vento, afinal, são tantas coisas que acontecem neste quintal, não é mesmo?
E ele, num suspiro profundo, com seu olhar 43 Aquele assim meio de lado / Já saindo / Indo embora e disse:
– Tsc, tsc, tsc.
– Oi? Só isso, Sr. Caramujo? Eu aqui me descabelando para ouvir:” Tsc, tsc, tsc?”
Caramujo sorriu, daqueles sorrisos gosmentos que só caramujos tem e calmo redarguiu:
– Você conhece minha casa? Vim lhe fazer um convite!
– Um convite? Como assim?
E ele sério continuou:
– Vim convidá-la para tomarmos um chá dentro da minha casca.
-Sr. Caramujo, deve haver algum engano…
-Não, não, minha cara, engano nenhum.
Respondeu-me muito seguro.
– Mas, Sr. Caramujo, como isto seria possível?
– Minha cara, como isto seria impossível?
– Sr. Caramujo somos muito diferentes, eu não caberia aí dentro!
– Minha amiga, você há meses vive dentro dela. Eu tenho observado você há bastante tempo e resolvi quebrar o gelo!
– Quebrar o gelo? Não estou entendendo nada!
-Ok, então eu vou desenhar para você, ou melhor, já desenhei, olhe no chão do quintal onde passei todos estes dias e bem sei que me observou o tempo todo. Vá, levante-se e olhe!
E desconfiada daquela prosa, fui dar uma espiada no traçado. Afinal, era verdade que foram dias observando sua viagem até ali.
Para minha surpresa, havia mesmo um desenho no chão, um lindo desenho que mal me dei conta antes. Nem o vi de tão distraída que andei, estava mesmo com a cabeça em outro cosmo!
-Sr. Caramujo, que lindo! Como fez isto?
– Você estava tão distraída que nem viu!
– Sim, uma enorme concha cintilante, que brilha conforme a luz do sol.
– Sim, minha querida, eu a fiz especialmente para tomarmos o nosso chá! Não é uma maravilha?
-Sem dúvida! A mais bonita que já vi! Obrigada. Mas mereço tudo isto, Sr. Caramujo? Tanto esforço da sua parte e eu aqui observando o senhor todos estes dias de curiosa, nem sei o que dizer… sinto muito pela minha bisbilhotice… O que posso fazer?
– Apenas deixe sua imaginação levar você para o nosso encontro.
– Naturalmente, Senhor, nesse mesmo instante!
Então, fechei meus olhos, me concentrei… inspira, expira… um, dois, três…E!
Com ele fui à sua casa desenhada no meio do meu quintal!
Sr. Caramujo serviu-me chá de conchinhas e biscoitos de bem-me-quer. Contou-me histórias de outros bichos, das aventuras e perigos que enfrentava com os sabiás, das novidades da Terra e das tristezas e preocupações que ela sentia. Contou-me sobre as dificuldades da amiga Goiabeira, sempre com muita tosse pois vivia atacada por ferrugem, mas que as gêmeas ora-pro-Nóbis socorriam como a todos naquele jardim, umas queridas! Contou da festa de flores do Limão-Limoeiro para esperar a nova florada, das visitas semanais de duas lindas borboletas francesas, professoras de Insetez e Jardinez, que vinham para dar aulas para os bichos-de-conta e formigas cantadeiras. Contou-me da Coruja Matilde que vigia o jardim noite e dia.
E eu ouvia, enchia os ouvidos de novidades, de alegria e de histórias contadas sem fim.
Quando me dei conta a velha ampulheta suspirou seu último grão de areia marcando outras luas e cometas. Barulhos de estrelas cadentes em voos rasantes caindo bem longe no firmamento. O dia coloriu-se laranja e carmim, nuvens riscavam o céu com desenhos de giz. Silêncio para a contemplação… olhei meu amigo com gratidão. O chá e a prosa tão ricos valeram a espera no mirante das Pitangueiras. Sorri feliz.
Então, no luzir de um lindo dia, entre os abraços da despedida, disse apenas: – Até breve! ao meu amigo.
E esperei Caramujo ir-se longe, bem longe pela longa travessia, do outro lado das fronteiras do meu quintal.
Por Celi Anizelli, amiga do Caramujo.