Calmo, gentil, de fino trato, ele chega sem se fazer perceber.
Aconchega-se com seus modos perto de nós e pouco nos damos conta da sua encantada presença. Com o tempo, começa a mostrar-se e decide estabelecer-se com um par, de preferência um daqueles que amamos.
É mestre em ensinar a valsa das lembranças e ensina ao seu par somente aquelas que ele deseja. Envolve-o neste bailar e com ele desliza leve por vastos salões regidos por sua harmoniosa orquestra ao som das suaves e irrepreensíveis notas.
Toma o par eleito em seus braços e o faz rodopiar a melancólica valsa na ponta dos pés. Sussurra ao seu ouvido promessas de indescritível fidelidade e diz que a partir daquele momento jamais sairá do seu lado, seja por qual motivo for.
Torna-se tão imprescindível que este amado par não nos reconhece nem se importa mais com a nossa presença, tampouco se incomoda em lembrar do nosso nome ou daquelas muitas lembranças que durante uma vida toda guardamos da sua convivência. A princípio, sem muito entender, sentimo-nos rejeitados, um tanto irritados a respeito desta exclusividade gratuita por um estranho.
O tempo passa, o esquecimento vem e perde-se a noção dos dias, das noites, das horas. O corpo, por tamanha dependência, fragiliza-se. Não anda, não come, não fala. Esvaziam-se as lembranças, suas dores, seus amores. Voa sua alma dos lugares que já não reconhece mais.
Ele a leva num passeio sobre suas grandes asas, calmo, manso, gentil, este sedutor que por fim descortina seu nome: ” – Chamo-me Alzheimer!”

