PÃO VERUSKA MULTIGRÃOS

Fotografia Henry Milleo

Ela me fez enxergar mais longe.
Emprestou-me seus olhos para ver o quanto eu era capaz e que eu poderia acreditar num sonho. Acreditar em mim.
Reencontrei-a 40 anos depois, como a descobrir um tesouro, cheio de histórias preciosas para comigo dividir.
Quando eu era menina, na cidadezinha onde morávamos, brincava com suas filhas no seu enorme quintal.
O reencontro foi uma emoção muito grande para nós duas. E aqui nesta terra, distante dos meus, adotei-a como mãe do coração e dela sinto falta todos os dias.
Foi ela quem me impulsionou a fazer o curso de pães…
Foi o toque dela na minha alma que me encorajou a seguir adiante.

Quase todos os dias, depois do curso, passava para lhe dar um abraço ou levar um pão quentinho que eu havia feito…

Por muitas vezes em nossos encontros, enquanto eu segurava suas mãos, D. Vera ouvia-me amorosa, permitia-me chorar e abrir meu coração para eu lhe contar minhas histórias e sonhar meus projetos.
Memórias revividas, nos distraíamos por horas em longas conversas sobre outros tempos e sobre hoje.

Quando terminei as aulas de panificação, em 2013, quis fazer um pão especial para ela porque,  por recomendação médica, D. Vera só podia comer pão integral…Disse-lhe que este pão seria dela e que eu o chamaria de Pão Vera.
Ela a princípio, concordou…

Fiz este pão incontáveis vezes.
Foi quase um ano inteiro assim. Muita massa jogada fora, mal assada, mal forneada…
Segui fazendo testes com a receita até que desse certo…
Até que pudesse ficar bom.

Lembro-me que em um de nossos muitos encontros, ela me chamou e fez um pedido:
“- Celi, já que este pão é meu, posso mudar o nome dele?”
Respondi um tanto ressabiada:
” – Claro, querida, o pão é seu, qual o nome que a Senhora quer dar?”
E ela me devolveu com os olhos brilhando: ” – Veruska, com K !”
E eu curiosa: “- Veruska com K? Por que Veruska?”
E ela sorrindo: ” – Porque era assim que papai me chamava: Veruska.”
Para ela, o carinho da lembrança com o pai.
Para mim, um pão cheio de amor e afeto embalado há tempos por ela.

ADORMECER…




A noite cálida 
cobre meu sono e
num suspirar doce de saudade
assopra nuvens condensadas de luar.