PALAVRAS…




Não adianta escrever ou dizer palavras bonitas
de apoio, se não o damos,
de amizade, se não a cultivamos,
de vida, se na intimidade derrubamos o ânimo e a esperança de um pai, mãe ou irmão.

Não adianta desenhar lindos versos de amor, 
se não o exercitamos com nossos pares,
de generosidade, se não a desenvolvemos,
de calma, se vivemos infernizando a vida de alguém…

De que adianta escrever sobre o respeito
quando furamos a fila, passamos no sinal amarelo e não temos a delicadeza para expor uma verdade doída aos ouvidos de outra pessoa.

Desnecessário colorir palavras de justiça e verdade
quando a ironia e a cupidez nos cerceiam no convívio mais íntimo desbancando a harmonia tão demorada a construir.

Palavras são fáceis de ser escritas ou ditas.
Podem manter-se amareladas ou desgastadas pelo tempo,
e assim mesmo lembradas, exaltadas, homenageadas…

Mas para vivenciá-las na “ponta do lápis” é necessário fazer uso do melhor apontador e se possível dar o exemplo.
Do contrário, serão apenas rabiscos quando escritas 
e quando ditas serão levadas pelo vento.

Férias em Caiobá…

Às vezes, sinto que  a solidão me abraça e me aparta dos que me são afins impedindo-me de conversas irmãs.
Sinto o eco de outras bocas, sempre no raso e nas superfícies.
Aquieto-me na borda e ouço à beira os assuntos sem articular…

Da prosa, abstraio-me e mergulho nos pensamentos distraídos da minha infância.
De volta, na orla da praia, Ana e eu no catar de conchinhas nas areias limpas e fofas de Caiobá.

Minha irmã e eu escavávamos a areia para fazer muros e castelos, enfeitados com conchinhas que havíamos acabado de buscar. 
Tinha conchinha em abundância em Caiobá e nós corríamos para pegar as maiores e mais lindas que conseguíamos carregar e voltávamos com as mãos cheias! 
Estávamos de férias, tínhamos todo o tempo do mundo!

Eu não queria ficar na sombra protegida por guarda-sol.
Queria o mar, sentir o sal da água na minha garganta.
A pele esturricada pelo sol fazia arder por longos três dias mas isto não me incomodava.
Eu queria brincar!
Minha barriga também ardia de tanto pegar “jacaré” com prancha de isopor… Delícia!
Deslizava nela até solavancar na areia onde a onda terminava!
De novo,  lá ia eu mar adentro com a prancha, domar outra onda, pegar outro “jacaré”!

Brincava, como brincava, até os olhos teimosos não aguentarem mais e fechar para dormir.

Na casa da praia, com fome de criança, só lembro do sabor daquela macarronada de molho vermelho com gosto de louro! Tia Marla era quem fazia… Onde será que ela está?

No quintal, os homens limpavam camarões, caranguejos e siris, mas também jogavam futebol.

Tinha árvore, tinha rede pra gente deitar depois do almoço e sentir o ventinho gelado nas costas  que batia nos ombros ardidos pela falta do filtro solar… Isto é muito moderno, na minha infância ainda não tinha… Mas o vento era refrescante…

Meus cabelos compridos ficavam ainda mais loirinhos e na praia, em fila, a pose de “miss” para a fotografia na ordem dos menores para os maiores feito escadinha.
Mulheres a postos! Um clique e pronto! Éramos “misses”!

A mãe usava touca de banho para proteger os cabelos, eu achava aquilo muito estranho e engraçado! Coisas da moda, coisas daqueles tempos!

Um barulho, uma risada, me traz de volta à tona… O barulho das bocas insossas me chama pra Terra…

E eu, devagar, olho para minha moldura de infância, despeço-me do balanço da rede e escuto apenas um sussurro das conchinhas no meu ouvido trazendo o barulho mar…

Sorriso nos olhos que fecham para abrir molhados de sal…

Fotografia: Plínio Rabelo